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Todo dia a moça vem almoçar. Senta sozinha, passeia pelo cardápio e escolhe um prato. Hoje foi o nhoque verde ao molho sugo. Enquanto espera a saladinha de entrada, sempre mexe no celular. Fica jogando um joguinho de eliminar cubos de uma pilha gigante. Cubos da mesma cor são eliminados de uma só vez com um simples toque da ponta do dedo indicador. Ela joga, mas parece pouco entretida. Seu rosto carrega tristeza, as sobrancelhas preocupadas sempre em direção ao chão, derretendo sem se moverem.
A comida chega e ela começa a colocar pequenas porções dentro da boca. Come devagar, apesar de mastigar rápido. Nunca sorri.
O nhoque está quente, ela espera sem pressa enquanto destrói mais cubos coloridos. Nunca olha ao redor; não se interessa pelas vidas acontecendo ao lado da sua. Parece sempre muito distante, como se o mundo que acontece dentro de sua cabeça estivesse a anos-luz deste em que senta e espera a comida esfriar.
Ela diz que fez uma cirurgia que cortou o estômago dela ao meio, deixando-o bem pequenininho,e desde então ela come muito pouco. Seu corpo largo suporta muito pouco. Ela então se conforma com seus cubos coloridos, desinteressada e sem fome.

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Estou cansada [tão cansada] de só ver a vida passar. Sendo toda dela e não sendo de ninguém. Sendo toda ela e não sendo nada. Sendo? Vendo. pra ser, tem que deixar ver (por isso, a avalanche de postagens. textos antigos, sentimentos às vezes passados. mas tudo verdade. até o que é inventado.)
co.ra.gem. - Do latim coraticum (cor + -atĭcum): associação entre a palavra latina cor, que tem como um dos significados a palavra coração, e o sufixo latino -atĭcum, que é usado para indicar a ação da palavra que o precede; agir com o coração. amar. devorar.  mergulhar.  doar. aceitar. desfazer. inundar. -(se) transbordar (se)
Acordo no escuro. Minha camiseta quente nas costas. No meu ouvido, a respiração lenta e densa de seu corpo adormecido. Não passa ar dentro de mim. Estou muito desperta. Olhos abertos pro breu, acordada enquanto ele dorme, sou lúcida e fria. Nossas peles coladas não aplacam a distância que há entre nossos corpos - a intangibilidade de nossas almas permanece (intocada), tão viva e real e presente como uma rocha que se impõe na areia da praia. Na areia está, apesar de tudo. Por trás de todos os olhares e carícias e palavras doces, o abismo entre o que nos habita ainda se faz, brutal. Me viro com cuidado e saio das cobertas. Sento e permaneço no silêncio alguns instantes. Levanto na escuridão e vou ao banheiro. Diante do espelho acendo a luz, que à princípio ofusca meus olhos, mas logo vejo, do outro lado da pia duplicada, um rosto pálido. Meu rosto pálido. Olhos nos olhos, procuro. Ver a verdade. O que verdade? Olhar desnudado, coração atento no peito aberto. Peito quente, camiseta co...