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Mostrando postagens de abril, 2013
Às vezes eu tenho vontade de ter o teu corpo. Tenho saudade de me inclinar na janela pra olhar o céu escuro, já sem estrelas, e te sentir se aproximando com toda a tua delicadeza, me tateando pelo quadril e subindo pelas costas. Você me abraça forte, acho que também olha pro céu. Um dos raros momentos em que você se cala. E nós ficamos ali, debaixo da noite, compartilhando o silêncio. Talvez eu valorize tanto o teu silêncio por que nele há espaço pra dúvida, há espaço pra que eu acredite que você me deixa tocar a tua alma e assim, sinta a minha sendo tocada. Como naqueles momentos em que a gente se encara, olhos nos olhos, entre um beijo e outro, ou durante a noite, na cama; e eu penso que te vejo, penso que você está se dando inteiro pra mim naquele e para aquele momento. O problema é que em geral você tá sempre falando e colocando muralhas de palavras entre nós, e aí eu já não sinto muita coisa, vou me afastando até me recolher num silêncio muito próprio. Se não é pra ter o te...
Todo dia a moça vem almoçar. Senta sozinha, passeia pelo cardápio e escolhe um prato. Hoje foi o nhoque verde ao molho sugo. Enquanto espera a saladinha de entrada, sempre mexe no celular. Fica jogando um joguinho de eliminar cubos de uma pilha gigante. Cubos da mesma cor são eliminados de uma só vez com um simples toque da ponta do dedo indicador. Ela joga, mas parece pouco entretida. Seu rosto carrega tristeza, as sobrancelhas preocupadas sempre em direção ao chão, derretendo sem se moverem. A comida chega e ela começa a colocar pequenas porções dentro da boca. Come devagar, apesar de mastigar rápido. Nunca sorri. O nhoque está quente, ela espera sem pressa enquanto destrói mais cubos coloridos. Nunca olha ao redor; não se interessa pelas vidas acontecendo ao lado da sua. Parece sempre muito distante, como se o mundo que acontece dentro de sua cabeça estivesse a anos-luz deste em que senta e espera a comida esfriar. Ela diz que fez uma cirurgia que cortou o estômago dela ao meio...
O despertador tocou e eu escorri do sonho, mas trouxe comigo alguma sensação. No pé da cama. O que tem? Nada, é o sonho. Ela já não está na cama, deve ter acordado mais cedo e foi fazer café. Me situo, bem desperta mas ainda cansada. Encosto o rosto no travesseiro e relaxo o corpo. Quero aproveitar mais alguns instantes no conforto de uma cama, porque sei que serão os últimos por muitos dias. Ela entra no quarto.
Eu sou a maior parte de mim mesma. É muito, é bom. Hoje o L. apareceu com bolo na praia e foi tão simples e tão bom. Foi diferente de qualquer aniversário que eu me lembre de ter tido.
Meus olhos, duas janelas. No vento, elas conversam. É bom estar na estrada de novo. São quilômetros e quilômetros de pastos, terras desertas. Pra onde vai a humanidade?
(Sobre ele.) Eu gosto do jeito como ele gosta de mim. Gosto de como tudo começou, de como despertou algumas partes minhas há muito adormecidas. Foi como uma novidade e nisso havia emoção. Gosto de como ele teve a combinação justa entre iniciativa e delicadeza; urgência e tranquilidade que pôde me fisgar e me fez querer ir além e acabar me abrindo de uma maneira inesperada. Talvez o que me incomode seja querer continuar me abrindo e sentir que ele não veria, que já não vê além do que há. (Para ele.) Eu queria me emocionar mais. E queria que você me acompanhasse, ou ao menos quisesse querer mais também. Tenho pouco a dizer, parece que você só escutaria se eu não coubesse em mim de tantas palavras. Você não dá ouvidos para os meus sussurros. Eu poderia então gritar, mas a verdade é que eu mal saberia que formato dar à minha voz. Talvez eu sinta falta de alguém que perceba minhas fragilidades.
O cansaço me inspira. Falta de ar. Eu não fumo cigarros. Como. Que é que me alimenta? Sinto fome de quê? Quero ir direto ao centro, ao que poderia chamar-se essência das coisas. Num salto, conhecê-las e já penetrar seu cerne. Isso é violento; poucas coisas se dão com tamanha rapidez. Eu comeria tanta besteira agora. Preferiria me apaixonar. Onde está meu cerne? A que ou quem oferecê-lo? Respondo "ao mundo", mas é o mesmo que dizer "a nada". Quero o que é com .
Essa é pra você. Você, a primeira a ver muita coisa que eu escondo do mundo. A oposta pelo vértice e unida pela alma [?]. Você, que me puxa pela mão quando eu empaco por qualquer distração da vida. Que sabe olhar no meu olho e ouvir com amor quando eu mal sei o que quero dizer. Que me vê. E compreende. Que me ama e é amada. Que de repente apareceu na vida e ficou ali por perto, delicada e forte. E foi cavando meu coração, de pouco em pouco e muito em muito. E agora nunca mais sai. Eterna na minha pequena vida. Somos um. com muito amor e urucum, pra você (sempre)
Estou cansada [tão cansada] de só ver a vida passar. Sendo toda dela e não sendo de ninguém. Sendo toda ela e não sendo nada. Sendo? Vendo. pra ser, tem que deixar ver (por isso, a avalanche de postagens. textos antigos, sentimentos às vezes passados. mas tudo verdade. até o que é inventado.)
Na cachoeira não dá pra abrir os olhos. Tem de ser estar lá, entregue aos golpes da água, escutando sua voz em nossa pele.  (temo e desejo as profundezas)
Por desconhecer a própria sensualidade, temia alguns encontros. Era como se, em consequência dos anos de vida predominantemente passivos, houvesse aprendido a receber o mundo com tensão. Portanto, naquela noite de festa assustou-se ao sentir aproximar-se o momento em que ele a beijaria. Subiu para o quarto na primeira chance que teve sem dizer nada. Entrou no escuro, que logo se transformou em penumbra, revelando-se à luz da rua. Parou em frente à janela semiaberta, sua respiração curta embaçando o vidro. Lá fora, a chuva caía indiferente.
Acordo no escuro. Minha camiseta quente nas costas. No meu ouvido, a respiração lenta e densa de seu corpo adormecido. Não passa ar dentro de mim. Estou muito desperta. Olhos abertos pro breu, acordada enquanto ele dorme, sou lúcida e fria. Nossas peles coladas não aplacam a distância que há entre nossos corpos - a intangibilidade de nossas almas permanece (intocada), tão viva e real e presente como uma rocha que se impõe na areia da praia. Na areia está, apesar de tudo. Por trás de todos os olhares e carícias e palavras doces, o abismo entre o que nos habita ainda se faz, brutal. Me viro com cuidado e saio das cobertas. Sento e permaneço no silêncio alguns instantes. Levanto na escuridão e vou ao banheiro. Diante do espelho acendo a luz, que à princípio ofusca meus olhos, mas logo vejo, do outro lado da pia duplicada, um rosto pálido. Meu rosto pálido. Olhos nos olhos, procuro. Ver a verdade. O que verdade? Olhar desnudado, coração atento no peito aberto. Peito quente, camiseta co...