Eu na multidão, água da chuva nos meus cabelos. O frio me petrificando até os ossos, eu danço. No palco canta-se e a pequena cidade vibra. Do mar de gente, uns olhos me encontram. Escuto um instante de silêncio e sinto a euforia coletiva suspender-se. É breve, logo voltamos todos a dançar de olhos fechados. Mas aqueles olhos me buscam e eu não evito ser achada. Olhos nos olhos, sorrio. Meu sorriso voa por sobre as cabeças e atinge em cheio seu alvo. Danço. De olhos fechados, sinto a multidão se alterar. Olho: seus olhos me olham, seu corpo a meu alcance. Ele se aproxima sem dizer palavra. A música perde seu som, o amontoado de corpos dançantes perde sua cor. Eu olho pros olhos. Os olhos me olham e se aproximam. Muito próximos, fecham-se. Fechados, me encontram. Sou lábios e mãos, sua pele é quente. O corpo febril por debaixo do couro do casaco. A carne pulsante por debaixo do couro da pele. Beijos de areia suave, meus sentidos em câmera lenta. Ele diz coisas em meu ouvido, seu sota...