Eu na multidão, água da chuva nos meus cabelos. O frio me petrificando até os ossos, eu danço. No palco canta-se e a pequena cidade vibra. Do mar de gente, uns olhos me encontram. Escuto um instante de silêncio e sinto a euforia coletiva suspender-se. É breve, logo voltamos todos a dançar de olhos fechados. Mas aqueles olhos me buscam e eu não evito ser achada. Olhos nos olhos, sorrio. Meu sorriso voa por sobre as cabeças e atinge em cheio seu alvo. Danço. De olhos fechados, sinto a multidão se alterar. Olho: seus olhos me olham, seu corpo a meu alcance. Ele se aproxima sem dizer palavra. A música perde seu som, o amontoado de corpos dançantes perde sua cor.
Eu olho pros olhos. Os olhos me olham e se aproximam. Muito próximos, fecham-se. Fechados, me encontram. Sou lábios e mãos, sua pele é quente. O corpo febril por debaixo do couro do casaco. A carne pulsante por debaixo do couro da pele. Beijos de areia suave, meus sentidos em câmera lenta. Ele diz coisas em meu ouvido, seu sotaque me acaricia a garganta.
Meu toque em sua pele de fogo, quero devorar. O ar que sai de mim não volta; me vejo nos olhos.
Todo seu calor me envolve, seus braços me inundam, seus lábios me cegam.
Ele me inspira, bebe do meu cheiro. Beijos cálidos pálidos.
Eu quase sofro quando ele me olha uma última vez e desaparece confundido na multidão.
Já não sinto frio. Danço
na noite